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CPK: a conta que diz se a sua frota dá lucro de verdade

Como calcular o custo por quilômetro da sua frota, por que a média esconde o caminhão que está te sangrando, e a conta de padaria que mostra um prejuízo de R$ 56 mil por ano entre dois caminhões "iguais".

Fernando Buniowski7 min de leitura
CPK: a conta que diz se a sua frota dá lucro de verdade

Conheci um dono de transportadora que faturava R$ 300 mil por mês e dormia tranquilo achando que ia bem. Aí sentamos com a planilha dele e separamos rota por rota: metade dava prejuízo, com o buraco coberto pelo lucro das outras. Ele bancava frete ruim com frete bom e chamava isso de "movimento". Só que caminhão andando é caminhão queimando diesel, gastando pneu e somando hora de motorista: movimento não é lucro. O problema dele nunca foi falta de trabalho, era nunca ter dividido o custo pelo quilômetro rodado.

A pergunta que importa não é quanto você faturou, é quanto te custou cada quilômetro pra faturar isso. Essa é a conta do CPK, o custo por quilômetro, e é mais simples do que assusta.

A conta, sem mistério

CPK é o custo dividido pela distância rodada no período.

CPK = custo do período ÷ km rodados no período

É isso. O resto é detalhe de qual custo você joga em cima. Não precisa começar pelo CPK completo, com depreciação, seguro, pneu e folha; isso vem depois. Comece pela maior fatia variável e mais fácil de medir, o combustível:

CPK de combustível = R$ gasto em combustível no mês ÷ km rodados no mês

Por que o combustível primeiro? Porque é onde o dinheiro escapa todo dia e é o que você mede agora, desde que esteja anotando direito. E o "direito" tem um detalhe técnico que derruba quase toda planilha de transportadora que eu já vi.

O KM que conta é a diferença, não o número solto

KM rodado no período não é o número que alguém olhou no painel e anotou uma vez. É a diferença entre a leitura do hodômetro de hoje e a da vez anterior. Você abasteceu hoje com o painel marcando 45.230. No abastecimento passado estava 44.918. Rodou 312 km entre um e outro. É esse 312 que entra na conta, não o 45.230.

Parece bobo escrito assim, mas é o que separa o CPK confiável do inventado. Se você não tem a leitura do KM em todo abastecimento, você tem chute, e o denominador errado transforma o CPK num número bonito que não diz nada. É a parte chata, e é por ela que muita gente desiste antes de chegar na resposta.

Dois caminhões "iguais" e R$ 56 mil de diferença

Deixa eu te mostrar por que vale o esforço. Pega dois caminhões da mesma frota: mesmo modelo, mesmo ano, mais ou menos a mesma rota. No olhômetro, gêmeos. Pela regra do hodômetro: o caminhão A começou o mês em 320.000 e terminou em 330.000 (fim menos início, rodou 10.000 km). O B saiu de 285.000 e chegou em 294.000, rodou 9.000 km. Diesel a R$ 6,00 o litro nos dois.

O A fez 3,2 km/L: pra rodar 10.000 km, queimou cerca de 3.125 litros, que a R$ 6,00 dão R$ 18.750. O B fez 2,5 km/L: pra rodar 9.000 km, queimou 3.600 litros, que dão R$ 21.600. Olha o que cai na conta:

Caminhão ACaminhão B
KM no mês (fim menos início)10.0009.000
Consumo3,2 km/L2,5 km/L
Diesel gasto (R$ 6,00/L)R$ 18.750R$ 21.600
CPK de combustívelR$ 1,88R$ 2,40

O A rodou mais quilômetro queimando menos diesel e fechou em R$ 1,88 por quilômetro. O B rodou menos e gastou mais, fechando em R$ 2,40. São R$ 0,52 por quilômetro de diferença entre dois caminhões que, de fora, são a mesma coisa.

Agora a conta de padaria, que é onde o sangue gela. O B roda 9.000 km por mês:

R$ 0,52/km × 9.000 km = R$ 4.680 por mês
R$ 4.680 × 12 = R$ 56.160 por ano

Cinquenta e seis mil reais por ano de diferença. Dá pra comprar um popular usado todo ano só com o que esse caminhão queima a mais que o irmão gêmeo. Fiz essa conta a primeira vez e conferi duas vezes porque parecia exagero. Não é.

E o pior é que o dono dessa frota nem sabe que o B existe: os dois somam no fim do mês, viram uma média razoável, e o rombo fica escondido no meio do bolo. O que causou os R$ 0,52 pode ser manutenção atrasada, rota mais pesada, o pé do motorista ou desvio mesmo. O CPK não te diz qual foi, mas acende a luz e aponta o caminhão. O resto é investigação sua.

O que muda quando você sabe o CPK por veículo

Quando o número é por veículo, várias decisões mudam de uma vez. Você cobra frete com um piso real, sabendo que aquele trecho roda a R$ 2,40 só de combustível. Calcula isolada aquela rota que o cliente adora e descobre se compensa ou se está pagando pra trabalhar e chamando de fidelização. E enxerga a hora de aposentar o caminhão velho: o de 2014 já está pago e parece de graça, mas se o CPK sobe mês a mês, a parcela de um novo sai mais barata que manter o velho rodando.

Mas a comparação que mais me impressiona é a do mesmo caminhão com motoristas diferentes. Não dois veículos, o mesmo veículo em meses diferentes, com gente diferente no volante. Travou a rota, travou o caminhão, e a diferença que sobra no CPK é, em boa parte, o pé. Esse dado muda a conversa quando você chama o motorista pra sentar: dá pra premiar quem economiza em vez de só brigar com o gastão.

A média é uma mentira confortável

O CPK médio da frota é um número que dá paz. "Minha frota roda a R$ 1,44 o quilômetro, tá tranquilo." E pode estar mentindo na sua cara, porque a média afoga o outlier.

Faz a conta: oito caminhões rodando lindamente a R$ 1,20 e dois sangrando a R$ 2,40. A média simples desses dez dá R$ 1,44, que parece saudável. Os dois que estão te comendo vivo somem no meio dos oito que vão bem.

O médio serve pra uma coisa só: comparar com o mês passado e ver pra onde a tendência vai. Pra decisão, é sempre por veículo. Gerenciar custo pela média da frota é como olhar a média de um galpão pra saber se tem alguém doente: o número fecha, e o doente continua lá.

Dá pra começar hoje, sem comprar nada

Não precisa de software pra começar, precisa de disciplina. Anote KM e valor em todo abastecimento, sem exceção, por 60 dias. No fim, você pega de cada veículo a leitura mais alta menos a mais baixa (igualzinho aos 312 km do começo do texto, só que somando o mês inteiro até virar os 10.000 do caminhão A), divide pelo combustível gasto, e tem o CPK por caminhão.

A parte chata é que isso depende do motorista anotar o número certo e não "esquecer" justo no abastecimento que ele não quer que você veja, mais alguém pra digitar tudo. Por isso vale automatizar. O Canguru existe pra esse registro virar 40 segundos no celular do motorista (KM, litros, valor e foto) e calcular o CPK por veículo sozinho, da distância real e não de número anotado de cabeça.

Mas a ferramenta é detalhe. O que muda o jogo é a conta. Faça ela nem que seja no papel, por dois meses, veículo por veículo. Tem pelo menos um caminhão na sua frota que você jura ser o mocinho e que está te custando um carro inteiro por ano. A média nunca conta isso; o CPK conta na primeira semana.

Se quiser ver isso rodando sozinho a cada abastecimento, dá uma olhada em canguru.tech.

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